Obrigada, Brooklyn Nine-Nine

A série deu uma aula sobre como abordar bissexualidade em uma Hollywood que evita essa palavra

O TEXTO A SEGUIR CONTÉM SPOILERS DA QUINTA TEMPORADA DE BROOKLYN NINE-NINE


Em seu 99° episódio, Brooklyn Nine-Nine confirmou algo que os fãs da série já especulavam (e desejavam): Rosa Díaz é bissexual. A revelação acontece quando Boyle ouve a conversa da detetive com seu novo ~~contatinho – e é uma voz feminina. Encurralada, Rosa confirma sua bissexualidade, dizendo assim com todas as letras:

Se a série tivesse parado por aí, já seria incrível. Afinal de contas, Rosa é uma personagem fechada e que se abre pouco, seria coerente não explicar mais nada e seguir o baile. A série já teria revelado (e repito, dito com todas as letras) a bissexualidade de uma personagem super querida pelo público, em uma cena e um episódio que já deram muito o que falar.

Mas Brooklyn Nine-Nine não parou por aí.

Em seu centésimo episódio, a série nos presenteou com um episódio praticamente dedicado à Rosa tornando pública sua bissexualidade. E o verbo é mesmo esse: presentear. Foram dois episódios em que a comunidade LGBT, especialmente a bissexual que é tão pouco visível, foi representada com muita verdade e dignidade.

No episódio 5×10, Rosa se assume para os colegas de trabalho, que a aceitam numa boa, e para seus pais, de quem não podemos dizer o mesmo. Os pais, que tinham começado a se aproximar da filha nesta temporada, encaram mal e, quando pensamos que a coisa ia melhorar, eles mostram que ela não foi tão aceita assim. Foi extremamente dolorido de ver porque foi a realidade nua a crua. Eu, mulher bissexual, chorei o episódio todo. Raríssimas vezes temos a oportunidade de ver um coming out bissexual nas telas e tudo que isso envolve, como uma pseudoaceitação porque a pessoa é parte hétero (o que na verdade é errado). Há também a esperança de que a relação “final” seja com alguém do sexo oposto, porque isso teoricamente invisibiliza a bissexualidade.

Somando os dois episódios, Brooklyn Nine-Nine usou a palavra “bissexual” dez vezes (confira aqui). Eles reafirmaram intencionalmente para não deixar dúvidas sobre a identidade de Rosa. Não me lembro de ver esse combo de “saída de armário” usando a palavra certa em nenhuma outra série, ainda mais trazendo questões tão reais e não fingindo que a vida é uma fantasia e um paraíso da aceitação.

Em Orange Is The New Black, por exemplo, a protagonista Piper é bissexual, mas a declaração é que ela afirma “gostar de pessoas”. E há um estereótipo gravíssimo reproduzido pela série: em OITNB, a bissexualidade de Piper é usada como sinônimo de falta de caráter por seus dois interesses amorosos. Tanto Larry quanto Alex acham que Piper é menos confiável porque também se relaciona com mulheres/homens – e o plot da série reforça isso. Quando ela sai do armário para a família de Larry, ela diz que “foi lésbica”.

Em How to Get Away With Murder, a palavra bissexualidade é literalmente interrompida por “é complicado” para definir Annalise Keating (veja aqui). Nas séries da CW temos vários exemplos: em The 100, que também tem uma mulher bissexual como protagonista, a sexualidade de Clarke não é colocada em questão. É bom, mas também é ruim porque não há nenhuma conversa sobre o assunto. O que talvez seja o melhor exemplo até agora é o personagem Darryl de Crazy Ex-Girlfriend, o típico Tiozão da Firma™ e que se descobre bissexual. Não há entretanto grandes conflitos em relação a isso no mundo a sua volta. Em Jane The Virgin, há também um homem bi: Adam. Foi ousado colocar um interesse amoroso da protagonista como bissexual e a série explora bem os dilemas de Jane em relação a isso. O ponto negativo é, mais uma vez, o personagem ser tido como não confiável.

Tudo isso só confirma como Brooklyn Nine-Nine foi muito além em sua maneira de abordar bissexualidade. Para coroar, o 100° episódio da série terminou com um discurso maravilhoso do Capitão Holt, que é um homem negro e gay – e mais um personagem maravilhosamente construído de maneira respeitosa e não estereotipada.

De maneira geral, esse é um sitcom diferente. Como comentamos no nosso episódio sobre esse formato de séries, B99 consegue fazer um humor pastelão, besta e muito engraçado sem desrespeitar ninguém. Pelo contrário, é uma série com uma representatividade importante e ainda diferenciada em Hollywood.

Isso nos traz ao que talvez seja o tópico mais importante do coming out de Rosa:

Representatividade na frente ou por trás das câmeras faz toda diferença. 

A atriz que interpreta Rosa, Stephanie Beatriz, também é bissexual. Ela comentou em entrevistas que sentia ser esse um caminho para sua personagem e que, quando ficou decidido que a Rosa realmente pegaria mulheres, ela fez questão de que a palavra “bissexual” fosse usada. Sugeriu ao diretor e aos showrunners e eles toparam. Apesar desse gesto de sensibilidade poder vir de aliados, é muito mais provável que ele aconteça quando há alguém bissexual no elenco.

Stephanie comentou ainda que entende as limitações que o termo “bissexual” pode trazer, mas que ainda assim ela achava importante usá-lo – justamente porque homens e mulheres bis carecem de representação positiva. Então temos uma atriz bissexual interpretando uma personagem bissexual \o/.

A reação do público e da crítica foi muito positiva, como não poderia deixar de ser. A série agora tem dois personagens LGBT: um homem negro e gay e uma mulher latina bissexual (fun fact: Stephanie Beatriz chorou quando soube do casting de Amy Santiago, porque acreditava ser impossível uma série escalar duas atrizes latinas. Mais um ponto para B99). E são apenas alguns dos pontos positivos da série. Brooklyn Nine-Nine segue seu enredo, agora com a comunidade LGBT ainda mais grata por sua tomada de partido. Que inspire muitas séries, porque Hollywood está precisando.


Ouça aqui nosso episódio sobre sitcoms:

Ouça aqui nosso episódio sobre representação LBT

Ouça nossa playlist “Proud to Bi”

 

 

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