Kevin Spacey prestou um desserviço à comunidade LGBT

O consagrado ator Kevin Spacey, de House of Cards e Beleza Americana, foi acusado de assédio sexual pelo ator Anthony Rapp. Segundo Rapp, o caso aconteceu quando ele era apenas um adolescente de 14 anos.

A acusação, feita em um momento de intensa publicização de casos de assédio em Hollywood por conta de Harvey Weinstein, obrigou o ator a dar uma resposta. Em seu Twitter, Spacey disse que não se lembra do ocorrido, mas que se isso aconteceu mesmo, foi um comportamento inadequado de uma pessoa bêbada. E por acaso ele encerra a nota falando que é gay:

A declaração de Spacey é problemática em muitos aspectos, mas não podemos deixar de falar sobre o grande desserviço com a comunidade LGBT, retrocedendo anos de luta contra o estigma e o preconceito.

Fuga da responsabilidade e desvio da atenção

Para começar, a resposta do ator à acusação de assédio não foi exatamente uma desculpa. Ele não se lembra do ocorrido e diz que se aconteceu como Rapp afirma, ele sente muito, mas o motivo é o álcool e não ele próprio. Foi um comportamento de bêbado, gerado por reação ao álcool, sem qualquer relação com ele.

Infelizmente, essa não é a primeira e nem será a última vez que um comportamento assediador, abusivo ou violento é justificado com outras variáveis, como álcool, drogas, luto e fragilidade emocional. Para dar dois exemplos brasileiros: Zé Mayer, respondendo à acusação da figurinista Su Tonani, alegou ser criado em outra época, sob outra mentalidade. Já na Faculdade de Medicina da USP, quando surgiram as primeiras denúncias dos estupros sistemáticos que aconteciam na instituição, a primeira resposta da Direção foi um seminário sobre o Uso Abusivo do Álcool.

É verdade que vários fatores podem piorar a violência, mas a única raiz do assédio é o machismo, a assimetria de poder que dá aos homens a autorização social para violar os corpos alheios. Em geral corpos femininos, mas como o caso de Anthony Rapp e Kevin Spacey deixa claro, o assédio também atinge os meninos e homens (recentemente, Terry Crews revelou ter sido assediado por um executivo de Hollywood).

Para piorar o que já estava ruim, Spacey resolveu desviar o foco da acusação de assédio. E como fazer isso? Dando uma notícia ainda mais “bombástica” para ocupar os tabloides. Ora, o que poderia ser chocante a ponto de abafar um escândalo sexual? Outra notícia de mesmo cunho! E é então que o ator confirma os antigos rumores sobre sua sexualidade e assume ser um homem gay.

E consegue desviar o foco, ao menos no primeiro momento:

Desserviço 

Ok, mas por que isso é um desserviço à comunidade LGBT? Não é bom ter atores de peso afirmando sua sexualidade não hegemônica?

Não quando a revelação da sexualidade vem, literalmente, intrincada a uma acusação de assédio!

Kevin Spacey provavelmente quis desviar os holofotes dizendo “a propósito, sou gay”, mas o fez no parágrafo seguinte de uma nota pública sobre um crime sexual. Ao colocar os dois assuntos no mesmo texto, ele mesmo induziu (e isso pode ter sido proposital ou não) as pessoas a associarem homossexualidade com pedofilia e abuso.

Vamos esclarecer: ser um assediador sexual independe de sua orientação. Nós temos milhares de exemplos de homens heterossexuais e com certeza muitos são os homens gays e bissexuais que também cometem esse crime. Os estudos sobre o tema também não mostram uma tendência de orientação sexual entre os assediadores (links no fim do post). Mas o senso comum ainda não tem uma distinção clara entre os dois conceitos, tanto é que o discurso anti-cidadania LGBT que mais cola é o anti-pedofilia, como se negar direitos aos gays automaticamente fechasse as portas para esse crime.

A comunidade LGBT (em especial os homens gays) luta há anos para tirar esse estigma, para mostrar que sua identidade não é nem patológica e nem criminosa. E então aparece Kevin Spacey desfazendo esse trabalho de formiguinha com uma simples declaração, cujo intuito era desviar a atenção de uma publicidade negativa.

É claro que o ator tem todo o direito de assumir sua sexualidade e vivê-la de forma livre (e não criminosa!!). Mas a maneira e o momento que ele escolheu para publicizar essa informação soam muito mais marqueteiras do que demonstram qualquer identificação com a causa LGBT ou vontade de agregar a ela. Pelo contrário, tenta surfar na empatia dedicada a celebridades que finalmente “saem do armário” depois de muito tempo.

Felizmente, a jogada não passou despercebida, gerando críticas mundo afora e começando a trazer consequências para a carreira do ator. A Netflix anunciou que a 6ª temporada de House of Cards será a última da série, o que foi entendido como uma represália ao comportamento de Kevin Spacey (fica difícil de afirmar, pois essa decisão poderia já ter sido tomada e apenas comunicada nesse momento de polêmicas e cobrança por posicionamentos).

A respeito disso, deixamos clara toda nossa solidariedade a Anthony Rapp, mas também levantamos uma questão: por que precisou apenas uma vítima masculina para que a denúncia fosse levada a sério enquanto as vítimas de Harvey Weinstein e de Bill Cosby tiveram que se juntar em dezenas para que o mesmo acontecesse – e ainda sem garantias de que levariam a algum lugar?

O caso promete ainda ter muita repercussão e nós acompanharemos de perto, mas o importante por agora é dizer: Não, Kevin Spacey, você não pode usar sua homossexualidade como refúgio para acusação de assédio. Nós não vamos passar pano, independente de sua orientação sexual.

Seu pedido de desculpas não foi realmente um pedido de desculpas. E agora você deve mais um à comunidade LGBT.


+ Textos sobre o tema:

Por que a ‘saída do armário’ de Kevin Spacey irritou celebridades, ativistas e fãs
How Kevin Spacey’s coming out fuels a dangerous myth about gay men and pedophilia
How dare you, Kevin Spacey? You’ve fuelled a vicious lie about gay men

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