O aborto na sua tela

Hoje, 28 de Setembro, é o Dia Mundial pela Descriminalização do Aborto. No Brasil, 1 em cada 5 mulheres até os 40 anos já realizou uma interrupção voluntária de gravidez, mesmo a prática sendo ilegal no país. Nos Estados Unidos, o procedimento é legal desde 1973, com a vitória conquistada pelo emblemático Roe v. Wade, caso judicial pelo qual a suprema corte do país reconheceu o direito ao aborto. Estimativas indicam que 3 entre 10 mulheres norte-americanas realizam um aborto e isso dificilmente é pauta em produtos de cultura pop. Essa ausência perpetua o mito de que é algo raro e contribui para o estigma que enfrentamos acerca do tema.

Na maioria das vezes, a representação de abortos na tela do cinema ou da TV é rasa, sem nuance alguma e raramente encara o processo de forma realista ou sem perpetuar estereótipos. Normalmente, o procedimento é usado como um dispositivo narrativo, a chamada trope, para atestar a moral boa ou ruim de uma personagem. Algumas maneiras são super-exploradas em séries e filmes: mulheres boas não abortam mesmo considerando fazê-lo, o anormalmente frequente aborto natural que enfraquece ou fortalece a personagem, e até o aborto mágico (onde o procedimento é realizado por motivos/forças sobrenaturais). Selecionamos alguns momentos da TV americana e brasileira para relembrar acertos e erros na hora de tratar esse assunto tão importante:

Scandal

Na season finale da quinta temporada, cinco minutos inteiros foram dedicados a mostrar a protagonista Olivia Pope em cenas sutis que representavam a personagem abortando. Em nenhum momento o nome do procedimento foi levantado. Ao som de “Silent Night”, vimos a radicalidade que Shonda Rhimes assumiu em sua série ao encarar o aborto como algo possível e de escolha exclusiva da mulher. Normalmente a narrativa acerca do aborto envolve muita dor, dificuldade e dúvida para a mulher — na maioria das vezes deixando-a devastada; o fato de Scandal sequer mencionar a gravidez e mostrar o procedimento, não como algo corriqueiro e sem coração, mas parte possível e de escolha da mulher, foi revolucionário. Além disso, até os episódios atuais da série, Olivia não parece se arrepender da decisão ou ser “assombrada por esse fantasma”. Scandal mostrou o aborto como ele é: um procedimento médico que não determina o tipo de mulher que somos, se tornando apenas um capítulo de nossa história.

Ainda, este episódio inteiro paira nos temas de direitos da mulher — é o aquele do fillibuster de Mellie, quando ela discursa sobre programas de planejamento familiar e saúde da mulher.

Grey’s Anatomy

Uma das personagens mais icônicas da série, Cristina Yang, sempre deixou claro a prioridade que sua carreira tinha, tomando a frente de família ou casamento. Em 2011, a personagem realiza um aborto porque ela não quer ser mãe. Nada trágico envolvido, apenas uma escolha. Em entrevista à revista TIME, a criadora Shonda Rhimes afirmou que afastar o tema do aborto da televisão é “estranho e pouco realista”.

BoJack Horseman

Para quem não conhece, BoJack Horseman é a animação original da Netflix que trata da vida pós-sucesso de um personagem metade homem, metade cavalo. Cheia de ironias, a série trata temas sérios como saúde mental de maneira competente e, de alguma maneira, divertida. Na terceira temporada, uma estrela teen do pop acaba se envolvendo em declarações a favor do aborto, se tornando o rosto da campanha pró-escolha. Tudo isso enquanto a personagem que está realmente grávida e fará um aborto é a sua assessora. Com humor extremamente ácido sobre o assunto, o episódio faz até uma referência à prática abusiva que mulheres norte-americanas (do Texas e Pennsylvania) são submetidas na hora de interromper a gravidez, onde são obrigadas a ouvir o batimento cardíaco do feto.

Verdades Secretas

Na novela global recentemente indicada ao Emmy internacional, o personagem Everaldo comandava uma clínica ilegal de abortos onde Pia realizou seu procedimento. No desenrolar da trama, o aborto é tratado como moeda de troca para relacionamentos, rendendo agressões físicas e verbais às mulheres, reiterando a noção de que a decisão sobre o próprio corpo não as compete.

Sex and the City

Por mais irreal que fosse a vida de Carrie Bradshaw, Sex and the City foi uma das mais revolucionárias séries de TV que já tivemos, considerando sua época. No episódio “Coulda Woulda Shoulda”, a advogada Miranda descobre que está grávida de Steve, o barman. O aborto é uma decisão lógica e rápida, que revolta a amiga Charlotte, há tempos tentando engravidar. O foco do episódio muda um pouco quando Carrie mente ao namorado Aiden sobre o aborto que ela realizou quando tinha 22 anos. Com o peso da situação, Carrie procura saber do rapaz de quem engravidou até encontrá-lo — e não ser reconhecida por ele, o que a faz ter certeza de sua decisão. O episódio é importante por mostrar diversos pontos de vista de mulheres sobre o assunto: há decisão, há certeza, há revolta, há culpa e, acima de tudo, há liberdade de escolha.

Império

Na novela do assumidamente conservador Aguinaldo Silva, Du (interpretada pela Josie Pessoa) engravida na primeira vez que transa com seu interesse romântico, o filho do Comendador, João Lucas. Certa do aborto, a menina enfrenta a família do rapaz das piores maneiras — com direito ao personagem de Alexandre Nero bradando: “Mocinha, pode espernear à vontade. Nem que tenha que lhe prender numa jaula, você vai ter esse filho, sim!”– até que é convencida a manter a gravidez contra a própria vontade. Em determinado episódio, a moça pensa em se jogar da escada pra encerrar tudo aquilo(!!!!!!!).

Girls

A série de Lena Dunham pode ter inúmeros defeitos, mas um dos acertos foi o retrato feito do aborto de Mimi-Rose, namorada de Adam. No episódio “Close Up” a mulher informa o namorado que realizou um aborto há poucos dias, deixando o rapaz furioso. Ao contrário de muitas representações, Mimi-Rose ignora o ataque do namorado e afirma que estavam juntos há pouco tempo e ela não tinha intenção alguma de criar uma criança com ele, com plena consciência e tranquilidade em suas ações. You go, Mimi-Rose!

Justiça

Na reta final da minissérie, o personagem Vicente revela para Elisa que sua filha realizou um aborto quando eles ainda namoravam, semanas antes d’ele matar ela a tiros em um crime mais tarde abertamente atribuído ao machismo. A questão se torna mais delicada quando o rapaz menciona que “talvez se esse filho tivesse nascido as coisas fossem diferentes”, quase como se a culpada pela própria morte fosse a moça que escolheu interromper uma gravidez indesejada.

Crazy Ex-girlfriend

Na série de Rachel Bloom, a gravidez é mostrada de um jeito muito verdadeiro, com todos os dilemas que traz consigo. Na segunda temporada, a personagem Paula finalmente consegue entrar na faculdade de direito, seu antigo, sonho, além de finalmente se reconectar com seu marido. Quando tudo isso acontece, vem a gravidez e, com ela, choros e dilemas. Paula, casada e mãe de dois filhos, inicialmente rejeita a ideia do aborto, mas opta por fazê-lo para não sacrificar seus sonhos conquistados depois de tanto tempo e que teriam que ser interrompidos com a chegada de uma criança. É interessante porque a série retrata os dilemas acerca do aborto, mas sem jamais culpar a mulher por fazê-lo. Traz inclusive um marido dando apoio e entendendo que a decisão não cabe a ele.

Obvious Child

Obvious Child é talvez um dos únicos filmes americanos que trata do assunto de forma tão leve, honesta e sem deixar as devidas nuances de lado. Protagonizado pela Jenny Slate (❤) e escrito e dirigido por Gillian Robespierre, o filme é uma comédia romântica sobre uma mulher que realiza um aborto após engravidar de uma “one night stand” e…. vive feliz para sempre. O ponto do filme é encarar um tema feito de tabu como ele realmente é, desmascarando a fachada pró-vida que Hollywood alimenta há tantas décadas (até em filmes indies como Juno). Não há aquele clima familiar, a mensagem é clara: interromper uma gravidez indesejada não irá arruinar sua vida.

Por esses exemplos podemos ver como o assunto ainda é um enorme obstáculo no caminho da liberdade da mulher sobre o próprio corpo. Se não existir uma conversa sobre o assunto, dificilmente conseguiremos mudar uma realidade onde vivemos sob ameaça de PECs que dificultam o acesso até a pílulas anticoncepcionais. Uma realidade onde tantas mulheres morrem em clínicas clandestinas e sem acesso à informação, em um país onde a estimativa é de 1 milhão de abortos clandestinos anualmente.

Por isso convidamos: vamos falar de aborto?

Mais links e referências:

Campanha Meu Corpo Minhas Regras do filme O Olmo e a Gaivota

Jemima Kirke conta sobre seu aborto na época da faculdade | Revista Monet

Naya Rivera revela ter feito um aborto na época de Glee | Buzzfeed

Como a cultura pop pode mudar o jeito que falamos do aborto | Huffington Post

Sinto informar, mas você já conheceu alguém que já abortou | Estadão

Aborto no Brasil: Na contramão do Mundo | Comum.vc

 

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